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Um Menino nos foi Dado

Um Menino nos foi Dado

Por Natanel Moreira:

Neste tempo do Natal, a liturgia oferece-nos uma imagem simples e profundamente familiar: um menino envolto em faixas, deitado numa manjedoura (cf. Lc 2,12). Deus escolhe a singeleza desse sinal para nos revelar o seu amor. E essa revelação, embora marcada pela simplicidade, é inesgotável em seu significado, pois nela se manifesta o mistério do Verbo que se fez carne.

O profeta Isaías fala de um povo que caminhava nas trevas: trevas de guerra, de injustiça e de ausência de perspectivas de futuro. Essas trevas, porém, não pertencem apenas ao passado. Continuam a se fazer presentes também em nossos dias: em conflitos que parecem não ter fim, em famílias feridas, em jovens sem esperança, em tantas pessoas marcadas por profundas mazelas existenciais e espirituais.

É precisamente nesse cenário que uma luz se acende, não apenas nas trevas de Israel, mas nas trevas de todos os tempos. Uma luz que, como proclama o Evangelho de João, “brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la” (Jo 1,5). Contudo, é importante sublinhar: não se trata de uma luz que ofusca, nem de um holofote de poder, nem do brilho dos palácios que dominam e oprimem. É a luz humilde que nasce na periferia da história, coerente com a simplicidade de uma manjedoura. Eis a grande revelação do Natal: Deus não se impõe, mas se oferece; não domina, mas se aproxima. “Um menino nos foi dado” (Is 9,5), o Filho eterno que se faz pequeno por amor, para estar conosco e caminhar ao nosso lado.

O Evangelho de Lucas nos recorda que “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). Esse detalhe, aparentemente secundário, torna-se uma forte interpelação para nós. Quantas vezes, também hoje, não há lugar para Deus! Não apenas por causa da maldade humana, mas por causa da indiferença, do excesso de ocupações, da vida cheia e dispersa, que já não deixa espaço para o essencial. Diante disso, o presépio nos interpela: há lugar para Jesus na minha vida? Ou Ele continuará a permanecer “do lado de fora”, à espera de ser acolhido?

Acolher o Menino, porém, não se reduz a um gesto sentimental ou a uma emoção passageira. Significa acolher o seu caminho e a sua proposta de vida. O Menino de Belém cresce, anuncia o Reino e nos ensina a justiça, o perdão, a proximidade com os pobres e a paz que brota de um coração convertido. Não há Natal verdadeiro sem comprometimento verdadeiro, ou permitimos que o Deus feito carne transforme nossa vida, ou corremos o risco de reduzir o Natal a uma festa vazia de sentido.

Por isso, celebrar o Natal é deixar que a luz que nasce na manjedoura ilumine concretamente o nosso viver. É permitir que o Menino nos desaloje, cure nossas indiferenças e nos conduza por caminhos de simplicidade, misericórdia e esperança. Que, ao contemplarmos o Deus que se fez pequeno, aprendamos também a nos fazer pequenos no amor, abrindo espaço para Ele em nossas escolhas, relações e atitudes. Assim, o Natal deixará de ser apenas uma data no calendário e se tornará um acontecimento permanente, no qual Deus continua a nascer no hoje da nossa história.

Autor: Natanael Moreira dos Santos- 3° ano da Configuração

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