Por: Evanilton Santos
A montanha, o monte, na Sagrada Escritura é sempre o lugar do encontro com Deus e de grandes feitos e acontecimentos. Abraão subiu o monte Moriá para realizar o sacrifício de seu filho Isaac; Moisés subiu ao monte Horeb para conversar e escutar a voz de Deus; no monte Sinai Moisés recebe de Deus as tábuas da lei e, no mesmo monte, Deus estabelece uma aliança com seu povo; no alto de uma grande montanha Jesus foi tentado pelo diabo; por diversas vezes Jesus sobe a montanha para orar e, no monte das oliveiras, é preso; de forma mais significativa, no alto do monte Calvário Cristo conquista nossa salvação com sua vida entregue por amor aos homens. Enfim, é inegável que o monte é sempre lugar privilegiado da manifestação e ação de Deus.
No tempo da quaresma, mais uma vez somos convidados a trilhar um itinerário espiritual que nos propõe a conversão. E no evangelho do segundo domingo da quaresma, ano A, nos é proposto o relato da transfiguração (Mt 17,1-9). Jesus sobe a uma alta montanha (monte Tabor) com Pedro, Tiago e João e ali se transfigura diante deles. Mais uma vez a montanha se torna lugar da manifestação de Deus. Não só é lugar de manifestação como também lugar da ação misericordiosa do Senhor que, revelando-se aos seus discípulos, espera deles a mudança de vida, isto é, conversão. Por isso toda quaresma é um grande convite que o Senhor nos faz para subir o monte e ali aprender dele e com ele. Subir o monte significa gastar tempo com Deus, esforçar-se para permanecer na presença dele, oração constante, obras de misericórdia, exercícios espirituais, participação nos sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Penitência. Tudo isso é ocasião para nos encontrarmos com o Bom Deus e começarmos a trilhar nosso caminho de conversão.
É interessante notar no evangelho que Pedro, diante da manifestação de Jesus, logo lhe diz: “Senhor, é bom ficarmos aqui (Mt 17,4)”; todo encontro verdadeiro com Jesus nos leva a dizer como Pedro: como é bom estarmos em sua presença, pois ela é reconfortante, é auxílio e proteção (Sl 32,20). Tristes são aqueles que já estão insensíveis à ação de Deus e não o sentem mais tocar suas vidas. Contudo, sempre há tempo de recomeçar, só é necessário subir o monte mais uma vez e ali escutar a voz do Senhor (Mt 17,5).
Contudo, subir o monte é apenas o começo de um processo. Jesus não chancela a ideia de Pedro e não propõe aos discípulos permanecer na montanha. Para os discípulos, depois do encontro com o Mestre e alimentados por sua palavra, é hora de fazer com que essa palavra seja transformada em ação para que todas as suas atitudes se transfigurem. Ou seja, é hora de descer da montanha e encarnar a palavra em suas ações, para que ela se torne vida e transforme as realidades que os rodeiam. Por isso, encontrar-se com Jesus é sair da esterilidade de uma vida fechada em si e se abrir à fecundidade da vida que brota dele e que perpassa os irmãos. Daí surge uma consequência prática de nosso encontro com Deus: transfigurar a nossa vida e a de nossos irmãos.
E mais uma vez, nesta quaresma, temos a oportunidade de fazer com que nossa oração se torne vida. A Campanha da Fraternidade deste ano nos propõe meditar sobre a fraternidade e a moradia. Em um mundo tão marcado pelas desigualdades e injustiças, somos convidados, uma vez mais, a transfigurá-lo com nossa ação; e isso pode começar a acontecer no cuidado com aqueles que não têm um teto ou que o têm em um estado deplorável. Descer do monte significa também a fraternidade e o amor para com o próximo, especialmente os mais pobres, porque Jesus se fez pobre e se identifica com aquele que está com sede, com fome, nu, preso, doente e sem teto (Mt 25,35-36). Cuidar do irmão que sofre é escutar a voz de Jesus que o evangelho nos pede hoje (Mt 17,5).
A conversão, longe de acontecer em uma relação bilateral, eu e Deus, se efetiva na capacidade de estender o olhar e ver Deus no outro e assim abrir os braços e estreitar os laços que nos unem como irmãos (relação plurilateral). E justamente neste ponto deixamo-nos perder, pois preferimos ficar no monte, na tranquilidade de uma vida sem compromissos, que assumir a missão de Jesus de transformar o mundo com nossas vidas. Descer o monte é sempre necessário. E a conversão passa por isso: ela exige uma relação vertical (eu e Deus) e uma relação horizontal (eu e os irmãos).
Por isso, queridos irmãos e irmãs, nunca nos esqueçamos de subir ao monte para nos encontrarmos com o Senhor, para escutar sua palavra e ser alimentados por sua presença. E assim, fortificados dele, desçamos o monte e busquemos transfigurar nossa realidade. Ainda hoje soa-nos a doce e suave voz de Jesus: subi ao monte para estar comigo e descei para levar minha palavra, encarnando-a em suas ações: “Levantai-vos e não tenhais medo (Mt 17,7)”.
Autor: Evanilton Santos Gonçalves – 4° ano da Configuração
