Por: Darlan Almeida
O evangelho das tentações de Jesus no deserto ilumina profundamente o sentido da Quaresma. Conduzido pelo Espírito, Ele entra no deserto antes de iniciar sua missão pública. Esse tempo não é um intervalo vazio, mas um caminho de preparação, discernimento e purificação do coração. A Quaresma, à semelhança desse deserto de Jesus, é um tempo favorável em que a Igreja é chamada a parar, silenciar e confrontar-se com o essencial da fé, transformando a oração em um olhar atento para com os fragilizados.
Os quarenta dias de jejum recordam a travessia do povo de Israel, os quarenta dias de Moisés no Sinai e os quarenta dias de Elias a caminho do Horeb. A Quaresma, portanto, não é apenas um período de renúncia exterior, mas um itinerário espiritual que nos conduz da dispersão interior à escuta obediente de Deus. É um tempo de graça em que somos convidados à conversão, não por medo, mas por amor.
A primeira tentação de Jesus nasce da fome. Ele está fisicamente enfraquecido, e o tentador o convida a transformar pedras em pão. Jesus recusa, não porque o pão seja mau, mas porque não aceita reduzir sua vida a uma lógica de satisfação imediata. Na Quaresma, aprendemos que o jejum não é desprezo do corpo, mas educação do desejo. Ao jejuar, reconhecemos que não vivemos apenas do que nos alimenta exteriormente, mas da Palavra que sustenta o sentido da vida.
A segunda tentação propõe uma fé baseada em sinais espetaculares. Jesus é convidado a se lançar do templo para obrigar Deus a agir. Ele responde com confiança humilde, recusando testar o Pai. A Quaresma nos chama a purificar nossa relação com Deus, abandonando uma fé interessada ou condicionada a milagres, para crescer numa confiança madura, capaz de permanecer fiel mesmo na aridez e no silêncio.
Na terceira tentação, Jesus enfrenta a sedução do poder e da glória. Todos os reinos do mundo lhe são oferecidos, desde que se prostre diante do mal. Essa tentação revela o grande risco espiritual: substituir Deus por ídolos. A Quaresma nos convida a rever aquilo que ocupa o centro da nossa vida, aquilo que, de forma sutil, pode estar sendo adorado no lugar de Deus: o sucesso, o reconhecimento, o dinheiro ou o controle sobre os outros.
À luz da exortação Dilexi te, do Papa Leão XIV, compreendemos que esse caminho quaresmal é atravessado por uma certeza fundamental: Deus nos ama primeiro. “Eu te amei” não é apenas uma afirmação consoladora, mas um chamado exigente. O amor de Deus, como recorda o Papa, é concreto, encarnado, voltado especialmente para os pobres, os frágeis e os esquecidos. A Quaresma não nos fecha em nós mesmos, mas nos abre à caridade, à partilha e à responsabilidade pelo sofrimento do outro. A Campanha da Fraternidade (CF) deste ano nos recorda o compromisso com os mais frágeis, com o Cristo sofredor. Ela nos apresenta uma realidade que deve caminhar paralelamente à espiritualidade: o cuidado com o irmão mais próximo. Com um olhar profundo sobre a vida concreta da sociedade, percebemos que, enquanto muitos esbanjam, outros sofrem com a carência do mínimo necessário, como uma moradia digna. A CF busca abrir espaço para reflexões teológicas que tenham como pauta o resgate da dignidade do Cristo, aquele que sofre silenciosamente o abandono social, que vive sem teto e sem pão.
Dessa forma, a prática quaresmal do jejum, da oração e da esmola não é um exercício isolado, mas uma resposta ao amor de Deus. Viver de acordo com a Palavra do Evangelho exige do ser humano uma resposta livre e consciente, que se traduza em um amor concreto, de modo que a oração seja plena e comprometida com a realidade, contemplando o Cristo total: aquele que era forasteiro e o acolhemos, que estava abandonado e o trouxemos à luz da sociedade.
A Quaresma é, portanto, um grande retiro espiritual que nos permite viver todas as dimensões da espiritualidade, a vida contemplativa e caritativa. No deserto da vida, Deus nos repete silenciosamente: “Eu te amei”. Acolher essa palavra nos permite atravessar nossas tentações, resistir ao egoísmo e escolher, como Jesus, o caminho da fidelidade e de serviço aos mais frágeis. Dessa forma, a travessia quaresmal nos conduz não à tristeza, mas à alegria da Páscoa: a alegria de um coração reconciliado, renovado e plenamente orientado para Deus e para os irmãos.