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QUINTA MEDITAÇÃO QUARESMAL:“VINDE E VEDE” (JO 1,39): “ELE VEIO MORAR ENTRE NÓS” (JO 1,14)

QUINTA MEDITAÇÃO QUARESMAL:“VINDE E VEDE” (JO 1,39): “ELE VEIO MORAR ENTRE NÓS” (JO 1,14)

Por: Yuri Cordeiro

A Campanha da Fraternidade deste ano propõe uma reflexão indispensável sobre a moradia digna, tema ao mesmo tempo sensível e urgente no contexto brasileiro. Com o tema “Fraternidade e moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a Igreja nos convida a enxergar a pessoa de Jesus naqueles que vivem sem teto nas mais diversas situações ou em moradias em condições insalubres. Nesse sentido, a afirmação cristã de que Deus “veio morar entre nós” (Jo 1,14) não é apenas uma verdade de fé a ser contemplada, mas um critério decisivo para interpretar a realidade humana. A Encarnação revela um Deus que jamais permanece distante nem cego às necessidades do ser humano, pelo contrário, revela um Deus que assume a condição humana em sua concretude, inserindo-se na história, nas relações e nas estruturas da vida. Em Jesus de Nazaré, Deus escolhe habitar o mundo como ele é, marcado por fragilidades, desigualdades e esperanças.

Essa presença, no entanto, não se manifesta de forma neutra ou indiferente. Desde o início, o mistério da Deus que se fez homem está ligado à experiência da precariedade. O Filho de Deus nasce sem lugar na hospedaria (cf. Lc 2,7b), vive sem ter onde reclinar a cabeça (cf. Lc 9,58) e percorre sua missão entre os pobres, os excluídos e os marginalizados fazendo o bem pela ação do Espírito Santo (cf. At 10,38). Essa opção não é circunstancial, mas reveladora daquilo que faz parte de sua essência. Indica o lugar teológico a partir do qual Deus se deixa encontrar, isto é, na realidade daqueles que foram privados de dignidade, de direitos e, muitas vezes, de um lar.

Por isso, o convite evangélico “vinde e vede” (Jo 1,39) adquire uma densidade particular. Jesus nos convida a ir além até de uma simples contemplação, nos chama a um verdadeiro deslocamento do olhar. Ver, aqui, significa reconhecer a presença de Deus onde ela se torna mais exigente, na vida concreta dos que sofrem sem mesmo uma lugar digno para chamar de casa. Significa deixar-se interpelar por uma realidade que não pode ser ignorada sem que se comprometa a própria autenticidade da fé.

A moradia, nesse horizonte, ultrapassa a condição de bem material para se afirmar como expressão fundamental da dignidade humana. Na tradição bíblica, a casa é espaço de pertencimento, de relações, de proteção e de vida, o lugar onde a existência se organiza e se projeta. Privar alguém desse direito, além de ser sintoma de uma carência social, é também uma ferida que atinge o próprio sentido da vida humana como dom de Deus. Afinal de contas, a moradia é a porta para todas as outras dignidades e direitos.

Quando a moradia é tratada como mercadoria ou privilégio, como temos visto acontecer em muitos lugares do planeta, rompe-se a lógica do dom que sustenta a visão bíblica da criação. A terra, confiada ao cuidado humano, é destinada à vida de todos (cf. Gn 1,26-28). A concentração, a exclusão e a indiferença diante dos que não têm lugar configuram, portanto, não apenas uma desordem social, mas uma ruptura com o projeto de Deus.

Reconhecer que “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) implica, portanto, uma conversão do olhar e da prática. Não basta afirmar a presença de Deus; é necessário discerni-la e corresponder a ela. A fé cristã, nesse sentido, não pode ser reduzida à interioridade ou à abstração. Ela se verifica na relação com o outro, especialmente com aquele que se encontra em situação de vulnerabilidade. O encontro com Deus passa, inevitavelmente, pelo encontro com o irmão (cf. 1Jo 4,20). A Igreja precisa ser esse espaço de encontro com uma fé que impele a viver como verdadeiros cristãos. Como bem disse o Papa Francisco, “se não encontram na Igreja uma espiritualidade que os cure, liberte, encha de vida e de paz, ao mesmo tempo que os chame à comunhão solidária e à fecundidade missionária, acabarão enganados por propostas que não humanizam nem dão glória a Deus” (Evangelli Gaudium, n. 89).

O “Vinde e vede” do evangelho permanece, assim, como um convite aberto, um chamado a sair de uma fé acomodada para uma fé que se deixa inquietar, um apelo a reconhecer que Deus não está ausente da história, mas presente nela, especialmente onde a vida é ameaçada. E, ao mesmo tempo, um torna-se um envio, pois se Ele veio morar entre nós, somos chamados a tornar essa presença visível, através de uma vida que testemunhe, de forma concreta, o amor que recebemos.

Autor: Yuri Alex dos Santos Cordeiro- 4° ano da Configuração

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