Por: Natanael Moreira
No quarto domingo da Quaresma, a liturgia nos apresenta o relato da cura do cego de nascença, um dos sinais mais densos de significado presentes no Evangelho de João (cf. Jo 9,1-41), no qual Jesus se revela como aquele que conduz o ser humano das trevas para a luz. Em mais uma de suas manifestações públicas, Jesus realiza um sinal que aponta para um significado mais profundo: a revelação de si mesmo como luz. Cristo manifesta-se como a luz do mundo, aquele que ilumina os passos do ser humano e confere sentido pleno à existência.
Sua missão é libertadora. Contudo, não se trata de uma libertação segundo as expectativas meramente humanas, mas de natureza radicalmente transformadora, pois quem acolhe Cristo e o segue não caminha nas trevas. Pelo contrário, quem assume com sinceridade o compromisso com o Reino de Deus abandona a escuridão do egoísmo, do orgulho e, em última instância, do pecado.
Se na primeira leitura (cf. 1Sm 16,1-13) não encontramos explicitamente a temática da luz, a unção de Davi oferece elementos profundos para refletirmos sobre a lógica divina e sobre a nossa própria vocação batismal. O episódio mostra que a escolha de Deus não segue os critérios humanos. Nem mesmo o profeta Samuel compreende imediatamente o agir divino, pois seu impulso inicial era ungir o filho mais velho de Jessé, impressionado por sua aparência e porte. Contudo, Deus revela um princípio fundamental, Ele não olha as aparências, mas perscruta o coração. Assim, a eleição recai sobre Davi, o mais jovem e aparentemente frágil.
Essa lógica divina manifesta um aspecto essencial da revelação: Deus frequentemente escolhe aquilo que é pequeno e frágil para manifestar sua força. A fragilidade humana torna-se lugar da manifestação do poder divino.
Esse tema conecta-se diretamente com o Evangelho. A narrativa joanina começa com o encontro entre Jesus e um homem cego de nascença. Diante daquela condição, os discípulos levantam uma questão típica da mentalidade religiosa da época: “Mestre, quem pecou para que ele nascesse cego: ele ou seus pais?” (cf. Jo 9,2).
Essa pergunta não era arbitrária. Em certos ambientes da teologia judaica do período, a doença podia ser interpretada como consequência direta do pecado, compreendida como uma espécie de punição divina. A resposta de Jesus, porém, rompe com essa lógica simplista e abre um novo horizonte teológico: “Nem ele pecou nem seus pais pecaram, Mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele”(Jo 9,3).Assim, o sofrimento daquele homem não é interpretado como castigo, mas como ocasião para que a ação salvadora de Deus se torne visível.
O gesto de Jesus possui também um forte simbolismo. Ao enviar o cego para lavar-se na piscina de Siloé, o evangelista evoca uma dimensão profundamente sacramental. A água que devolve a visão remete à água do Batismo, pela qual o ser humano renasce para uma vida nova. Não é por acaso que essa narrativa possui fortes ressonâncias com o diálogo de Jesus com Nicodemos (cf. Jo 3), onde se fala do novo nascimento “da água e do Espírito”.
Do encontro com Cristo nasce um homem novo. Aquele que vivia nas trevas passa a ver, não apenas fisicamente, mas espiritualmente. O verdadeiro milagre não é apenas a cura da cegueira corporal, mas o processo de fé que conduz o homem curado a reconhecer progressivamente quem é Jesus.
Na segunda leitura (cf. Ef 5,8-14), o apóstolo Paulo convida os cristãos a viverem de modo coerente com essa nova condição: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz”. A vida cristã consiste precisamente em abandonar as obras das trevas e caminhar como filho da luz. Escolher a luz significa viver segundo o Evangelho, praticando as obras de Deus, que se manifestam na bondade, na justiça e na verdade.
Assim, a liturgia deste domingo nos coloca diante de uma pergunta decisiva: queremos permanecer nas trevas ou acolher a luz de Cristo? A Quaresma é um tempo privilegiado para essa passagem interior. Como o cego de nascença, somos convidados a deixar que Cristo toque nossa vida, cure nossas cegueiras e nos conduza à verdadeira luz. Somente quem se deixa iluminar por Cristo pode, por sua vez, tornar-se luz para os outros.
Autor: Natanael Moreira dos Santos – 4° ano da Configuração
