Por: Abel Mourão
O encontro de Jesus com a samaritana (Jo 4,5-42) revela, de forma aparentemente trivial, a ternura do Coração de Deus, que vem ao encontro de cada pessoa humana para estabelecer uma aliança redentora, comunicando-lhe o dom mais precioso: o seu próprio Espírito. Jesus – autêntica Revelação do Pai – teve o cuidado de se apresentar como alguém necessitado que pede algo à mulher, expressão simbólica da busca de Deus pelo homem errante, pela ovelha perdida. É Ele quem toma a iniciativa do encontro, iniciando um diálogo que, a seu tempo, se tornará uma relação de comunhão que ultrapassa as primeiras expectativas.
Jesus surpreende os discípulos ao escolher uma mulher samaritana, com quem eles não estabeleceriam diálogo, devido à rivalidade entre os judeus e os samaritanos. Mas aí está a compaixão de Cristo, que atravessa os muros das divisões e ultrapassa as barreiras culturais e religiosas que, muitas vezes, atrasam a fraternidade universal. Precisamente com essa mulher, uma improvável destinatária da sua atenção, Ele faz uma das revelações mais explícitas da sua identidade messiânica, assumindo: “Sou eu, que falo contigo” (Jo 4,26). No curso da interpelação, Ele lhe oferece a “Água viva”, que representa o próprio Espírito de Deus, capaz de fazer fruir a vida eterna naqueles que O acolhem como dom da graça. “Quem beber da água que eu lhe darei nunca mais terá sede […] e se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). Trata-se do Dom por excelência, da comunhão divina muito superior a qualquer atividade religiosa dos judeus ou dos samaritanos, bem como a qualquer outra realidade que o homem ouse imaginar. É precisamente essa a novidade que Jesus expõe a ela e a todos desde então: o desejo do Pai de habitar no interior da criatura amada, torná-la um sacrário vivo, um templo do Altíssimo.
“Acredita-me, mulher, está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. […] Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura” (Jo 4,21-23).
A adoração a que Jesus se refere não se restringe a ritos ou observâncias religiosas, muitas vezes estéreis e até sectárias. Está mais ligada ao reconhecimento reverente da presença de Deus diante de si. Adorar é um ato de rendição interior, expresso nas decisões cotidianas de “fazer a vontade do Pai” (cf. Jo 6,38). É uma submissão da própria vontade – muitas vezes egoísta – ao amor divino, que exige uma correspondência confiante. A fé cristã é precisamente essa confiança no amor de Deus que restabelece a amizade ferida pela antiga e soberba desconfiança. Jesus inaugura uma nova forma de adoração, essencialmente interior (por ser vivida no espírito), cujos sacrifícios de louvor estão mais relacionados com a oferta da integridade da vida do que com a de objetos inertes. Adorar é reconhecer o valor da presença de Deus na própria existência, ressignificada por saber-se amada por Ele. Jesus, por meio de suas ações e palavras, ensinou-nos o que seja a verdadeira adoração – aquela que o Pai procura em cada pessoa humana. Deu-nos o exemplo com sua própria vida e, neste encontro com uma desconhecida samaritana, mostrou que ninguém, por menor que se sinta, é invisível aos seus olhos.
Jesus, mais uma vez, supera os protocolos rígidos da tradição religiosa e inaugura, a partir desse encontro com uma simples pecadora, uma relação santificadora. Uma relação com potencial de transformação interior, que conduz a uma viva comunhão com Deus e que transborda do mais íntimo da alma para as diversas relações da vida – uma vida iluminada pela presença do Espírito Santo.
Essa proposta de Jesus à samaritana, estendida a todos, não pode passar-nos ao largo. Cristo chama cada um de nós a ultrapassar os limites das periódicas observâncias para adentrarmos no mistério da verdadeira adoração – “em espírito e em verdade” (cf. Jo 4,23) – pela qual a Igreja continuará a sua missão de anunciar e instaurar o Reino de Deus (cf. Lumen Gentium, nº 5).
Autor: Abel de Pinho Mourão
